Inovação impulsiona 1,2 mil empresas no País
As empresas que inovam, segundo pesquisa, têm 16% mais chances de exportar, além de vencer no mercado internoMarina Pita
A idéia de um aparelho para gravar ligações telefônicas no computador surgiu depois que Alexandre Costa foi prejudicado financeiramente em um negócio fechado por telefone de Voz sobre IP (Internet). A partir daí, desenvolveu um gravador simples, entrou em uma incubadora de empresas em Goiás e hoje vende o PCtel para gigantes como Petrobrás e Vale do Rio Doce.
A fabricante de adesivos à base de água Adespec tem outra história curiosa. A empresária Wang Shu Chen decidiu inovar a fabricação de adesivos depois de se ver doente por causa da proximidade diária com solventes químicos no trabalho e criou o prego líquido, uma cola impermeabilizante à base de água, 30% mais barata que os similares importados.
Esses são dois exemplos das cerca de 1,2 mil empresas que inovam no Brasil e que, por isso, têm crescido e ganhado mercado no Brasil e no exterior. Infelizmente, elas são exceção. Apenas 1,7% das empresas nacionais fazem algum tipo de inovação de processo ou produto, de acordo com levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
As empresas que inovam, segundo a pesquisa, têm 16% mais chances de exportar, além de vencer no mercado interno.
Exportação é justamente a nova meta da PCtel para 2007. Depois de três anos incubada no Centro Federal de Educação Tecnológica, a PCtel criou um gravador telefônico que comporta até 100 linhas em um mesmo computador, produto único no mundo, e, para vendê-lo no exterior criou e registrou uma marca internacional. A meta da PCtel é dobrar as exportações — que hoje são 10% do faturamento — este ano e em 2008 vender mais no exterior do que no mercado doméstico. Para Costa, o grande obstáculo à inovação é a falta de recursos. “Em uma empresa pequena, o lucro não é suficiente para investir em pesquisa.” Pior para o País.
As empresas inovadoras pagam salários 23,4% maiores em relação às empresas que nunca investiram em inovação e 12% maiores que a média geral da indústria, de acordo com o estudo do Ipea, de 2006. Além disso, as empresas mais inovadoras do País tiveram um crescimento no número de empregos formais de 29% no período de 2000 a 2004, contra uma média de 19% em toda a economia brasileira, conforme a pesquisa. No caso da PCtel, de um quadro inicial de 3 funcionários, a empresa conta hoje com 34 pessoas, 14 das quais na área de desenvolvimento.
Já para Chen, o desenvolvimento de cola à base de água não foi só um alívio para a saúde mas também um bom negócio, já que 80% dos adesivos do mercado brasileiro ainda utilizam solventes. O último produto lançado pela empresa, o Pesilox, foi usado na colagem de placas táteis (para orientação de cegos) na Estação da Luz do Metrô de São Paulo. O produto, usado principalmente na construção civil, está sendo vendido para empresas como a Eternit, líder em telhas e caixas-d‘água de fibrocimento.
As restrições a adesivos à base de solventes em países desenvolvidos abrem inclusive a possibilidade de exportação à Adespec. Da mesma forma, a aprovação das primeiras leis desse tipo no Brasil amplia ainda mais os horizontes da empresa, que foi a segunda colocada no “Prêmio FINEP, Região Sudeste”, em 2005.
Universidades
Um ponto em comum entre todas as empresas que inovam é a parceria com universidades — recurso esse de que mesmo a gigante Oxiteno não abre mão. A indústria química tem parcerias com diversas instituições no Brasil e mantém um grupo de pesquisadores no mundo que se reúne em um conselho para manter a empresa em linha com o que há de mais atual em pesquisa. No segundo semestre, por exemplo, a Oxiteno inaugurará a primeira fábrica da América Latina para a produção de álcoois graxos, que será também a única no mundo a usar como matéria-prima o óleo de palmiste, mais conhecido como óleo de dendê.
A unidade, que custou US$ 120 milhões e fabricará 100 toneladas do produto em Camaçari (BA), faz parte da estratégia da Oxiteno de investir em especialidades químicas aproveitando as riquezas naturais do País. Essa foi a estratégia escolhida para se tornar competitiva em um mercado de concorrência mundial como o de químicos. “Para uma empresa nacional ser competitiva em um mercado tão concorrido como o químico, é imprescindível investir em inovação”, afirma Hugo Ladeira, gerente de Marketing da companhia. “Em 2003, os novos produtos, lançados há cinco anos, representavam menos de 10% de nosso faturamento; hoje são mais de 25%.”
A Oxiteno vai receber da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) R$ 96,1 milhões para a execução de 104 projetos de pesquisa e desenvolvimento este ano. O aporte é continuação do apoio da agência ao programa de inovação da empresa, que ainda colhe os frutos do primeiro investimento, aprovado em 2003. Naquele ano, os R$ 53,5 milhões liberados resultaram no lançamento de 112 novos produtos, no registro de oito patentes e no aumento de 8% do faturamento anual. A Empresa Brasileira de Compressores (Embraco) terá este ano R$ 20 milhões da Finep. Objetivo é expandir sua participação no mercado mundial de compressores comerciais, que atualmente é de 8%.
A Embraco já é líder mundial em compressores herméticos, com 20% de participação de mercado. A companhia inaugura este ano sua segunda unidade industrial na China para fabricar o compressor EMB, produto 100% desenvolvido no Brasil, que reduz o consumo de energia em 40%. “Normalmente, as empresas fazem o contrário: montam no Brasil produtos desenvolvidos em outra parte do mundo”, brinca o diretor corporativo de Tecnologia da Embraco, Roberto Campos.
Hoje, 60% de seu faturamento, que em 2005 foi de R$ 1,2 bilhões, é proveniente da venda de novos produtos, levando-se em conta os que foram colocados no mercado há até 3 anos. Além disso, a empresa, que dispõe de 37 laboratórios de pesquisa no mundo, 13 dos quais no Brasil, é hoje a segunda brasileira que mais registra patentes nos Estados Unidos.


2 Comments:
Um ponto importante: a inovação deve estar presente no fazer profissional de cada um. É muito comum abandonarmos o espírito de inovação quando somos engolidos pelo mercado de trabalho.
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